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Em uma remota comunidade aborigene proxima de Alice Springs, no coracao do deserto australiano, dois adolescentes sudaneses, que chegaram a Australia como refugiados ha pouco mais de seis anos, ensinam criancas aborigenes a jogarem capoeira.

A aula fez parte do II Capoeira Angola Meeting Australasia, evento anual criado pelo brasileiro Edielson da Silva Miranda, ou Mestre Roxinho, como e conhecido. Baiano da Ilha de Vera Cruz, ele vive em Sydney desde 2006, onde introduziu a Capoeira Angola e coordena o Projeto Bantu.

Em entrevista a Falamos Portugues, Mestre Roxinho fala da infancia dificil na Bahia, do programa socio-cultural que desenvolve na Australia e de como a Capoeira Angola foi fundamental para o seu desenvolvimento pessoal e profissional.

FP – COMO SURGIU O CAPOEIRA ANGOLA MEETING AUSTRALASIA?

MR – Quando cheguei a Australia, em 2006, ninguem jogava Capoeira Angola. Hoje, existem grupos em algumas cidades australianas, na Nova Zelandia e na asia. Criei esse evento no ano passado para colocar todos eles em contato. O primeiro, em 2011, foi em Sydney e, este ano, em Alice Springs.

FP – POR QUE ALICE SPRINGS?

MR – Ha tres anos vou para a cidade para trabalhar com jovens e criancas aborigenes atraves do Projeto Bantu. e o mesmo programa social que tenho em Sydney, onde o foco sao os refugiados. E como venho preparando alguns jovens para trabalharem comigo, pensei em leva-los para trocar experiencias com os aborigenes.

FP – QUANTOS JOVENS LEVOU?

MR – Dois. Uma menina e um menino, ambos de 16 anos, nascidos no Sudao. Eles tiveram uma infancia dificil, viveram em campos de refugiados, viram a guerra. Hoje, estao na escola, tem uma casa para morar e estao se restabelecendo como individuos. Achei interessante coloca-los em contato com os aborigenes, pois seria uma forma de ligar duas pessoas que vieram da segregacao aqueles que, ironicamente, sao segregados em seu proprio pais. Eu queria que os proprios refugiados, que hoje tem diferentes caminhos de pensamento pela possibilidade que lhes foi apresentada, vissem essa outra realidade.

FP – COMO FOI A EXPERIENCIA?

MR – Foi maravilhosa. Muito proveitosa para eles que, no inicio, tiveram um grande choque ao ver aborigenes andando descalcos pelas ruas, com roupas sujas e consumindo muito alcool. Foi dificil acreditar que isso existia aqui na Australia. Ao mesmo tempo, eles sentiram a possibilidade de passar algo positivo para aquelas criancas, que adoraram as aulas e pediram para a gente voltar.

FP – QUANDO A CAPOEIRA SURGIU NA SUA VIDA?

MR – Eu venho de uma familia de capoeiristas. Meu avo paterno jogava Capoeira Angola e era mestre de samba na Ilha de Vera Cruz. Meu primeiro contato com a capoeira foi por volta de 1976, atraves dele. Anos depois, quando nos mudamos para Salvador, conheci o Mestre Virgilio, que se tornou meu mestre. Eu tinha cerca de sete anos e vendia cafezinho quando ele me chamou para trabalhar em sua serralheria. Continuei vendendo cafe e trabalhava com ele quando tinha servico. Quando nao tinha, eu vendia jornal, pois precisava ajudar a sustentar minha familia. Ate que um dia faltou galinha na Bahia e a mulher dele sugeriu que eu dormisse la para entrar na fila logo cedo. Fazia muito tempo que eu nao dormia numa cama e que nao tomava cafe da manha. Era uma epoca em que a Bahia sofria com uma pobreza muito grande e a populacao negra mais ainda. Dias depois, ele me pediu pra comprar galinha de novo e eu fui. Ele me chamou e disse: “Acho que voce nao quer mais ir embora, entao fique aqui”. Fiquei, cresci e aprendi capoeira com ele.

FP – COMO SURGIU O PROJETO BANTU?

MR – Por volta de 1994 a 1997, eu fazia parte do movimento negro e de combate ao racismo na Bahia. Para entender os porques daquela luta, resolvi pesquisar a questao da capoeira e do candomble, que e a minha religiao, e saber de onde eu vinha. Descobri que meu bisavo era de Angola, dos povos bantos. Naquela epoca, eu ja tinha um projeto social que se chamava “Ere Menino Vem Gingar”. A partir da pesquisa, mudei o nome para Projeto Bantu, o que me fortaleceu muito, pois eu vinha de uma condicao de dificuldade e pobreza e, atraves da capoeira, consegui me estabelecer como individuo na sociedade. Conquistei um nome, comecei a viajar, a ministrar cursos no exterior e ate em faculdades, mesmo sem ter formacao academica. Com as oportunidades que tinha, aumentava a vontade de devolve-las para criancas em situacoes de risco. Assim, investi todo o meu trabalho no Projeto Bantu, que comecou em Salvador, foi para o interior da Bahia e de Sao Paulo, para a Febem paulistana e tambem para a Europa, onde trabalhei com criancas refugiadas na Espanha. Em 2006, o trouxe para a Australia.

FP – COMO O PROJETO BANTU FUNCIONA AQUI?

MR – Temos uma associacao sem fins lucrativos, o Capoeira Angola Cultural Centre, em Sydney, onde desenvolvemos as atividades do Projeto Bantu e da Escola de Capoeira Angola Mato Rasteiro. Os recursos sao limitados, vem de fundos do governo, das mensalidades da escola e de contribuicoes que recebemos durante os eventos ligados a cultura e tradicao afro-brasileira que realizamos, como exibicoes de videos e palestras. Tambem obtemos verba com a venda do livro “Capoeira Angola: Historia, Cantorias e Versos”, que lancei em 2011, e do CD “Travessia do Mar”, que gravei com o meu mestre. Trabalhamos ha cinco anos em parceria com a STARTTS, organizacao que atende refugiados na Australia. Ou seja, nao e facil manter o centro. Ele nao vive sozinho.

FP – O QUE FALTA PARA VOCES?

MR – Falta que as pessoas conhecam o Capoeira Angola Cultural Centre e descubram como podem contribuir, principalmente a comunidade brasileira, que talvez nao tenha tido contato com a cultura afro tradicional no Brasil. Se tivessemos uma participacao mais expressiva de brasileiros, seja trazendo algo para desenvolver dentro do espaco, ou participando das atividades que ja temos, certamente caminhariamos melhor.

FP – COMO AS PESSOAS PODEM UTILIZAR O ESPACO?

MR – Por ser uma instituicao sem fins lucrativos, o centro esta aberto a pessoas que, de maneira voluntaria, estejam dispostas a contribuir, seja dando aulas de samba de raiz, violao, musica e danca, ajudando a exibir os diversos documentarios que temos, preparando comida ou desenvolvendo qualquer atividade que estiver dentro do nosso escopo. Todas as sextas-feiras, as 18h30, temos uma roda de tradicao, aberta para capoeiristas de todos os estilos e escolas que quiserem jogar ou apenas assistir e matar a saudade. A partir da divulgacao do nosso trabalho e da apresentacao de novas ideias, muito pode ser realizado.

Para mais informacoes, acesse www.capoeira-angola.com.au e www.projectbantu.org.

Formado em jornalismo, Pablo Nacer vive na Australia desde agosto de 2007. e autor do livro “Meu Avo A’uwe”, sobre tres viagens que fez para uma aldeia indigena xavante no Mato Grosso, e do blog www.pablitoaustralia.com.